29 fevereiro, 2008


O conceito de que a célula e a unidade básica da vida já esta bem impregnado em nossas mentes, de igual forma também sabemos que, pelo menos até o presente momento, a vida nada mais é do que um complexo e não totalmente elucidado conjunto de reações químicas. Embora estarmos muito longe de desvendar a "vida" em seu atual estagio, quem nunca se perguntou - "Como ela surgiu?". Muitos cientista já fizeram a mesma pergunta, sendo que alguns até tentaram criar teorias que explicassem tal acontecimento. Na década de 30, dois cientistas (Alexandre Oparin e J. B. S. Haldane) de forma independente elaboraram uma teoria em comum, com base nos prováveis constituintes da atmosfera primitiva (H2O, N2, CO2, CH4, NH3, SO2 e possivelmente H2) eles chegaram a conclusão de que a radiação ultravioleta e/ou descargas elétricas faria com que as moléculas simples presente na atmosfera reagissem entre si dando origem a moléculas mais complexas, inclusive moléculas orgânicas como, por exemplo, aminoácidos. Tal teoria pode ser comprovada por um experimento que reproduziu as hipotéticas condições da atmosfera primitiva, este experimento foi realizado em 1953 por Staley Miller e Harold Urey. A partir deste acontecimento inúmeras outras teorias foram elaboradas para explicar como as células puderam se originar de tal situação, no entanto tais mecanismos são ainda muito obscuros, e devido a esse motivo não vamos nos ater a este detalhes. No entanto por qualquer que seja os caminhos seguidos pela evolução da vida está muito claro que há uma similaridade entre os seres vivos atuais, e graças a essa similaridade é possível, através de formas de vida mais simples, desvendar alguns dos "segredos da vida" que nos permite desenvolver estratégias para vivermos mais e melhor

escrito por alflank

História

A Bioquímica tem as suas raízes na história da Química, em particular no interesse do homem em saber que transformações ocorriam nos organismos vivos, responsáveis pela sua origem, crescimento e metamorfose. As questões colocadas por aqueles que procuraram compostos na Natureza que curassem doenças, que se interrogaram sobre a fisiologia do corpo humano, que usaram processos naturais como a fermentação de cervejas e que observaram a decomposição da matéria orgânica, entre outros, lançaram as bases da Bioquímica tal como é conhecida na actualidade.

[editar] Na Antiguidade

Demócrito
Demócrito

A religião taoísta desenvolvida há mais de 2000 anos na China concebia o mundo como dividido em dois opostos, Yin e Yang, que, na luta para se manterem em equilíbrio, gerariam os cinco elementos água, terra, fogo, madeira e metal, que constituiriam todas as coisas. Os chineses preparavam então elixires contendo compostos de modo a equilibrar Yin e Yang no corpo; esta busca de elixires levou à descoberta de medicamentos e processos de fermentação. Experiências com fluidos corporais levaram provavelmente à descoberta de hormonas sexuais. Este tipo de alquimia reflectia então as práticas médicas/farmacêuticas da época.

Existem também registos que as antigas civilizações egípcias e babilónias praticavam a extracção de substâncias com propriedades farmacológicas e de perfumes a partir de plantas.

Na Grécia Antiga, Empédocles postulou no século V a.C. o mundo como comporto por elementos, de forma similar às ideias taoístas. Desta feita, seriam quatro elementos: fogo, ar, água e terra. A escola aristotélica desenvolveu esta ideia, que foi no entanto rebatida por Demócrito. Demócrito introduziu o conceito de atomicismo, de que a diferença entre pequeníssimas partículas indivisíveis, que juntas constituiriam toda a matéria, explicariam as diferenças macroscópicas desta. Esta teoria atómica da constituição da matéria, comparável com a teoria moderna, foi no entanto esquecida até ao século XVI.

É também sabido que os povos árabes possuem uma longa tradição de conhecimentos farmacológicos, mas foram os antigos Gregos quem desenvolveram a alquimia, uma das bases da Química moderna, e portanto também da Bioquímica, com a preparação de poções e tinturas a partir de minerais e plantas.

[editar] Idade Moderna

Paracelso.
Paracelso.

Paracelso, no século XVI, formulou o universo como sendo regulado por leis químicas, em que os processos químicos serviriam de base às transformações observadas na Natureza. Também estabeleceu a ideia de que as doenças deveriam ser tratadas usando compostos químicos e que a natureza das próprias doenças estaria ligada à putrefacção dos "dejectos" provenientes de processos químicos. A utilização da Química para fins medicinais foi denominada "iatroquímica" por Paracelso.

Apesar de Paracelso misturar diversos conceitos místicos e alquimistas nos seus ensinamentos, a utilização de compostos químicos com fins farmacêuticos generalizou-se, especialmente no século XVII, devendo-se parte desta generalização da iatroquímica a w:Jan Baptista van Helmont, discípulo de Paracelso. Numa publicação póstuma (1648), van Helmont descreve uma experiência em que apenas água havia sido adicionada a um jovem salgueiro plantado em terra previamente seca num forno. O salgueiro cresceu sem haver apreciável variação da massa da terra e van Helmont atribuiu este crescimento à transformação de água em madeira, casca e raízes. Embora van Helmont tenha retirado as conclusões erradas das suas experiências, houve de sua parte uma tentativa de planear meticulosamente e de quantificar as transformações observadas. Outras observações de van Helmont relevantes à história da Bioquímica incluem a sua descrição da digestão como um processo fermentativo usando ácido e a excreção de líquidos alcalinos no corpo humano, nomeadamente a bílis.

As primeiras experiências sobre o metabolismo animal conduzidas de forma controlada foram publicadas por Santorio Santorio em 1614 no seu livro Ars de statica medecina, no qual Santorio descreveu como determinou o seu próprio peso antes e depois de comer, beber, dormir, trabalhar, ter relações sexuais, jejuar e excretar. Ele descobriu que a maior parte da comida ingerida era perdida no que ele denominou de "perspiração insensível".

Franciscus Sylvius, discípulo de van Helmont, ampliou o conceito de digestão, englobando a participação da saliva e sucos pancreáticos e caracterizando o processo digestivo como uma neutralização entre ácidos e bases. Sylvius considerou que também noutros processos fisiológicos ocorreria neutralização e que, deste modo, as doenças surgiriam de situações em que existisse um excesso de ácido ou de base no corpo.

[editar] A influência do atomicismo

O microscópio de Hooke.
O microscópio de Hooke.

A ideia de que toda a matéria seria composta por unidades de tamanho diminuto, sendo por isso invisíveis se pensadas isoladamente, ganhou força no século XVII. A invenção do microscópio composto, por Robert Hooke, permitiu as primeiras observações de células. Robert Boyle considerou a matéria como composta por corpúsculos; Descartes apoia a teoria atomicista. Boyle afirma que as propriedades da matéria são explicáveis pelas propriedades físicas (tamanho e forma) dos corpúsculos, assim como pelo seu movimento, e que as transformações químicas são produzidas pela interacção mútua entre essas diminutas entidades.

[editar] O conceito de oxidação

Até aos trabalhos de Antoine-Laurent Lavoisier, persistiram ideias como a dos elementos aristotélicos (ou variações desta; uma ideia particularmente persistente foi a do fogo como elemento de transformação) e a teoria do flogisto. Lavoisier explicou pela primeira vez a oxidação de metais e não-metais pelo oxigénio e alargou o conceito de oxidação aos processos fisiológicos: o oxigénio respirado seria utilizado na "combustão" do carbono contido em alimentos, formando-se dióxido de cabono, expulso na expiração, e calor, que explicaria o calor interno dos animais. Uma parte do ar que não seria respirável, o azoto, seria expulso sem alteração.

Nos finais do século XVIII, Joseph Priestley, que dedicou uma grande parte da sua vida ao estudo dos gases,descobriu que as plantas produziam "ar desflogistificado", isto é, contendo oxigénio, na presença de luz; foi na mesma época que Jan Ingenhousz e Jean Senebier formularam uma teoria para a fotossíntese.

[editar] Idade Contemporânea

[editar] A influência da Química-Física

Quando, nos finais do século XIX, começou a haver um interesse na química de soluções, e a Química-Física ascendeu à categoria de ramo independente da Química, surgiu também um renovado interesse pelo estudo da concentração do ião hidrogénio (H+) e a sua relação com o pH. O dinamarquês Søren Sørensen sugeriu em 1909 utilizar o negativo do logaritmo da concentração de H+, -log[H+], originando a escala de pH tal como é conhecida na actualidade, uma ferramenta de auxílio na determinação da força de ácidos e bases. O conceito de pH foi rapidamente assimilado nos estudos bioquímicos, pois eram então conhecidas as capacidades de tampão de sistemas fisiológicos, evitando extremos de acidez ou alcalinidade.

[editar] O fim do vitalismo

No século XIX, aquando do estudo da fermentação de açúcar a álcool em leveduras, Louis Pasteur concluiu que a fermentação era catalisada por uma força vital dentro das células, a que chamou "fermentos". Pensava-se então que os fermentos funcionavam apenas dentro de organismos vivos.

Friedrich Wöhler
Friedrich Wöhler

Originalmente acreditava-se que a vida não era assunto para a ciência. Acreditava-se que apenas os seres vivos podiam criar as "moléculas das vida" (a partir de moléculas já existentes). Este pensamento começou a mudar a partir do ano de 1828 quando Friedrich Wöhler publicou um trabalho sobre a síntese de uréia, provando que compostos orgânicos podiam ser criados artificialmente e derrubando o vitalismo como base teórica para a distinção entre a matéria animada e inanimada.

[editar] A Bioquímica moderna

Talvez o fator crucial para o surgimento da Bioquímica tenha sido a descoberta da primeira enzima em 1833, que na época recebeu o nome "diastase" (hoje chamada "amilase"); quem a descreveu foi Anselme Payen. Em 1896, Eduard Buchner contribuiu para a Bioquímica descrevendo pela primeira vez um complexo processo bioquímico fora da célula - a fermentação alcoólica de extratos celulares de fermento - o que lhe valeu o Prémio Nobel da Química de 1907.

Outro avanço importante na Bioquímica foi a demonstração da natureza proteica das enzimas por James B. Sumner, um assunto anteriormente controverso, ao conseguir cristalizar primeiro a enzima urease e, mais tarde, a catalase. A cristalização de proteínas permitiu a aplicação de técnicas de raios-X para a determinação de estruturas tridimensionais proteicas, algo conseguido pela primeira vez com a enzima lisozima. Mais tarde, e após os estudos de Linus Pauling sobre a natureza da ligação química e a estrutura das hélices alfa proteicas, James Watson, Francis Crick e Maurice Wilkins publicaram a estrutura tridimensional da dupla hélice do DNA.

Embora o termo "bioquímica" tenha sido usado pela primeira vez em 1882, é mais aceito que a criação formal deste termo tenha ocorrido em 1903 pelo químico alemão Carl Neuberg. Anteriormente essa area de ciência era denominada "química fisiológica". Desde a metade do século XX em diante, a bioquímica avançou muito; esse avanço foi possível graças ao desenvolvimento de novas técnicas como a cromatografia, difração de raio X, espectroscopia de ressonância magnética nuclear (RMN), microscopia eletrônica e simulação da dinâmica molecular. Estas técnicas permitiram a descoberta e análise detalhada de moléculas e vias metabólicas celulares, que possibilitaram, por exemplo, elucidar a glicólise ou o ciclo de Krebs (ciclo do ácido cítrico).

Hoje, os resultados e princípios bioquímicos são empregados em muitas outras áreas que vão da genética à biologia molecular, da agricultura à medicina.

TRABALHO SOBRE ORIGEM DA VIDA, HIPÓTESES E EXPERIÊNCIAS

ELABORADO POR:

RUI FREITAS, CARLOS TEIXEIRA, VICTOR BARBOSA E MURTALA KEITA

POLO DO ANO ZERO DA PRAIA. CADEIRA DE BIOLOGIA GERAL EM 7/1997

INTRODUÇÃO

Depois da solidificação da crosta terrestre, muitos e muitos milhões de anos devem ter decorrido até que a Terra arrefecesse o suficiente para que permitisse a criação e o desenvolvimento das formas mais elementares e primitivas da vida.

Como teriam sido originadas essas formas?

A resposta mais simples seria: teriam sido originadas de outras formas preexistentes.

Desde os tempos remotos, o Homem vem-se preocupando com possíveis respostas. Porém, só há cerca de um século parece ter encontrado a solução correcta. Para os fixistas, a origem da vida nunca constituiu um problema, pois, acreditavam que as espécies foram originadas por acto divino. Até há relativamente pouco tempo, acreditava-se amplamente que as formas avançadas da vida poderiam nascer directamente da matéria não viva. Esta teoria também denominada de geração espontânea, foi refutada em meados do último século graças aos experimentos de Pasteur.

Hoje, o problema da origem da vida é discutido sob a luz da teoria da evolução, que admite que apenas o tempo e processos físicos e químicos, operando nas condições reinantes no ambiente da terra primitiva, levaram à formação de sistemas químicos, capazes de se reproduzir.

Quando a Terra quente começou a arrefecer, o vapor de água condensou-se sob a forma de chuva e formou os Oceanos. Estes, por sua vez, dissolveram substâncias minerais da crusta sólida e absorveram amónia e metano da atmosfera. As radiações ultravioletas do Sol e descargas eléctricas na atmosfera forneceram energia para a formação de moléculas orgânicas semelhantes às que constituem os seres actualmente.. Com o decorrer do tempo, estas substâncias químicas juntaram-se para formar uma "sopa" primitiva nas águas ricas em substâncias minerais. Existiriam então condições adequadas para a formação espontânea de moléculas cada vez mais complexas e, finalmente, foram produzidas associações moleculares que tinham as propriedades da vida.

Em 1859, Arrehnius admitia que os primeiros seres vieram do espaço e desenvolveram-se na Terra. Esta hipótese teve como fundamento científico o

estudo dos meteoritos, contudo, é impossível falar que qualquer forma de vida, mesmo rudimentar e bem protegida, tenha podido atravessar incólume a barreira das radiações cósmicas.

Apesar de existirem uma variedade de seres vivos que povoam hoje a Terra e outrois, já extintos, torna-se lógico concluir que estão relacionados por

laços de parentesco mais ou menos próximos, pressupondo que existira um ancestral comum.

Essas relações de parentesco são representadas em diagramas filogenéticos semelhantes a árvores genealógicas, cujas raízes partem dos seres vivos que estão na origem de todos os outros.

A VERIEDADE DOS SERES VIVOS

E A TEORIA DA EVOLUÇÃO

Há na Terra milhares de organismos que vivem no ar, no solo e na água. Não só existem em grande número como apresentam grande variedade de tipos, desde seres microscópios até animais e vegetais gigantescos.

A teoria da evolução auxilia a explicar essa grande variedade de seres vivos.

A ideia de que os organismos evoluem através dos tempos intrigou muitos dos primeiros naturalistas. Os manuscritos dos antigos filósofos gregos mostram que eles admitiam a possibilidade de novas formas vivas terem-se originado de outros tipos preexistentes.

- O que significa a teoria da evolução para o biólogo?

Nos seus termos mais simples, os seres vivos podem-se modificar; algumas espécies podem-se alterar com o tempo e outras podem-se extinguir e aparecer. Significa, ainda, que os tipos de vegetais e animais que existem actualmente na Terra não pertencem às mesmas espécies a que pertenceram os organismos primitivos; muitas espécies de animais e vegetais que dominaram no passado não mais existem e as conhecemos através dos seus fósseis.

No século XIX, Charles Darwin apresentou provas que fizeram com que esta teoria fosse aceite definitivamente.

Antes deste, um importante trabalho sobre a evolução foi realizado pelo biólogo francês Jean Batiste Lamarck. Foi ele o único a propor, antes de Darwin, uma hipótese bem elaborada para explicar como os animais e vegetais evoluem. Suas ideias sobre o fenómeno da evolução aparecem no seu livro "Philosophie Zoologique", publicado em 1809, ano em que nasceu Charles Darwin.

Como base para sua hipótese, Lamarck argumentava que uma grande mudança no meio ambiente provocaria, em uma espécie animal, uma necessidade de se modificar. Essa necessidade levaria à formação de novos hábitos.

Essa ideia e mais a observação da natureza, porém sem controlo experimental, levaram Lamarck a duas suposições que são os fundamentos da sua teoria. Chamou à primeira a lei do uso ou desuso e, segundo esta, quanto mais uma parte do corpo é usada mais se desenvolve; por outro lado, as partes que não são usadas enfraquecem vagarosamente, atrofiam-se e podem mesmo desaparecer. À segunda suposição chamou de lei da herança dos caracteres adquiridos: Lamarck postulou que qualquer animal poderia transmitir a seus descendentes aquelas características que se desenvolveram pelo uso ou se

atrofiaram pelo desuso. Segundo ele, as novas espécies aparecem por evolução, como resultado da aquisição ou perda de caracteres.

Lamarck usou muitos exemplos da natureza para explicar sua hipótese.

Um dos exemplos é que a girafa vive em lugares onde o solo é quase invariávelmente seco e sem capim, obrigando a comer folhas e brotos no alto das árvores; ela é forçada, continuamente, a se esticar para cima. Esse hábito, mantido por longos períodos de tempo por todos os indivíduos da raça, resultou nas pernas anteriores se tornarem mais longas que as posteriores e o pescoço tão alongado que a girafa pode levantar a cabeça a uma altura de 18 pés(cinco metros e meio)sem tirar as pernas anteriores do solo.

Segundo Darwin, novas espécies são produzidas por meio de selecção natural.

O que é a selecção natural?

Para responder a estas questões, Darwin formulou as seguintes ideias:

- Dizia ele que todas as espécies têm potencialidades para aumentar em progressão geométrica de geração para geração, porque para todos os organismos há, em cada geração, maior número de descendentes do que de pais.

Esse aumento em progressão geométrica pode ser ilustrado tomando como exemplo uma ameba:

Se uma ameba se divide produzindo duas, na geração seguinte produzir-se-ão quatro e nas subsequentes oito, dezasseis, trinta e duas e assim por diante.

Entretanto, embora os organismos tenham tendência de aumentar em número, o número de indivíduos de uma determinada espécie, na realidade permanece praticamente o mesmo.

Essas duas observações levaram Darwin a concluir que deve haver então, luta pela sobrevivência entre todas as espécies de organismos, uma vez que, se em cada geração é produzido o maior número de descendentes e se o número de indivíduos da espécie permanece constante, deve-se concluir que há competição pelo alimento, água, luz, temperatura e outros factores do ambiente, onde nem todos se sobrevivem.

Segundo observação de Darwin há variação em toda a espécie, isto é, dentro de uma mesma espécie, os indivíduos são diferentes entre si.

Baseando-se nessas suposições e nas observações, Darwin concluiu que algumas variações poderiam auxiliar os membros de uma espécie a sobreviver em um determinado meio, enquanto variações poderiam não ser úteis. Em outro meio, a mesma variação poderia ser inútil e até mesmo prejudicial. Segundo ele, os organismos que apresentam variações favoráveis conseguem sobreviver e reproduzir-se, mas uma grande parte dos organismos com variações desfavoráveis poderiam morrer. Uma vez que essas variações possam ser herdadas pelos descendentes, as favoráveis se acumulariam dentro de um certo tempo e, os organismos que as possuíssem, se tornariam tão diferentes dos indivíduos da espécie original que constituiriam uma nova espécie. Essas

suposições e conclusões constituem a hipótese da selecção natural de Darwin, hoje chamadas "teoria da selecção natural" que descreve o mecanismo pela

qual a evolução pode-se se processar; explica também, como uma nova espécie pode descender de uma outra mais antiga e como a grande variedade de formas de vida foi produzida.

Estas ideias de Darwin sobre selecção natural podem ser resumidas nos seguintes itens:

1 - Todos os organismos têm potencialidades para aumentar em número em progressão geométrica;

2 - Em cada geração, entretanto, o número de indivíduos de uma mesma espécie permanece constante;

3 - Conclui-se, então, que deve haver competição pela sobrevivência;

4 - Variações(que podem ser herdadas)são encontradas entre os indivíduos de todas as espécies;

5 - Algumas variações são favoráveis a um organismo em um determinado ambiente e auxiliar sua sobrevivência e reprodução. Variações favoráveis são transmitidas para os descendentes e, acumulando-se com o tempo, dão origem a grandes diferenças. Assim, eventualmente, novas espécies se produzem a partir de espécies antigas.

ABIOGÉNESE E BIOGÉNESE

Abiogénese

"Sempre que o homem depara com o inesperado, o exuberante espectáculo das coisas vivas, considera-o uma instância da geração espontânea da vida". Afirmava Alexandre Oparin.

A expressão geração espontânea é a convicção de que algumas entidades físicas podem surgir espontaneamente, ao acaso, a partir da matéria inerte, sem progenitores naturais.

Aristóteles foi um dos cientistas que mais de evidenciou na defesa da teoria da geração espontânea, cujo pensamento influenciou os sábios do mundo ocidental durante muitos séculos. Há mais de 2.000 anos ele acreditava que a

vida podia originar-se espontaneamente da matéria bruta resolvendo, assim, o problema da origem da vida.

A sua hipótese baseava na existência de um "princípio activo", dentro de certas porções de matéria, que não era considerado uma substância, mas sim uma capacidade de fazer determinada coisa. Esse princípio podia organizar uma sequência de factos, os quais produziriam a vida, isto é, um ser vivo, a partir da matéria bruta, desde que tivesse condições favoráveis. Baseando-se no conceito deste princípio activo, Aristóteles explicou porque um ovo fecundado podia se transformar num ser vivo.

Tais são os factos, os seres se originam não somente do cruzamento de animais, mas também da decomposição da terra... E entre as plantas a matéria procede da mesma maneira, algumas desenvolvem-se de sementes de certas partes vegetativas, outras por geração espontânea através de forças naturais, entre as quais do apodrecimento da terra.

A teoria da geração espontânea ficou mais enriquecida com o apoio de outros cientistas, tais como William Harvey, célebre por seus trabalhos sobre circulação sanguínea, René Descartes e Isaac Newton.

Jean Baptiste Van Helmont, grande adepto da teoria da geração espontânea mostrou que substâncias não vivas podiam originar seres vivos, a partir da elaboração de uma receita para produzir ratos: num ambiente escuro, colocou camisas sujas e algumas espigas de trigo. Verificou, após 22 dias a presença de pequenos ratinhos.

Porém, não levou em conta que esses ratos podiam vir de fora!

Um caso particular aceite por muitos cientistas era o da geração espontânea dos micróbios.

Com o aperfeiçoamento do microscópio por um naturalista holandês, Anton Leeu Wenhoek, que observou e descobriu minúsculos organismos, cuja existência era até então ignorada, tornou-se possível a explicação da origem desses minúsculos organismos a partir de duas correntes de pensamento: Por um lado, alguns cientistas acreditavam que os microorganismos originavam-se

espontaneamente da matéria não viva que lhes servia de alimento; por outro

lado, outros, incluindo o Leeu Wenhoek, acreditavam que as "sementes" ou

"germes" dos micróbios encontravam-se no ar e, ao cair em ambientes propícios, cresciam e reproduziam-se. Para o primeiro grupo de cientistas, a teoria da geração espontânea foi suficiente para explicar a origem dos microorganismos.

As experiências continuaram, desta vez com o cientista francês Jablot. Na sua experiência surgiria uma origem externa dos micróbios que fecundam em soluções contendo matéria orgânica; concluiu que a origem desses microorganismos deve-se à existência de sementes no ar. Isto porque, se as infusões fossem fervidas por algum tempo e depositadas num recipiente fechado, elas permaneciam livres dos micróbios por vários dias. Bastava abrir esse recipiente para que os micróbios reproduzissem. O cientista John Needham descreveu que os microorganismos surgem em muitos tipos de infusões, independentemente do tratamento que recebem: fechados ou não fechados, fervidos ou não fervidos.

John Needham, depois de ter realizado inúmeras experiências, concluiu que a origem desses microorganismos era a abiogenese. Nessas experiências utilizou sucos vegetativos e outros líquidos que continham pequenas partículas de alimentos; colocou os líquidos dentro de tubos de ensaio fechados, a fim de impedir a entrada do ar e depois aqueceu a mistura. Passados alguns dias tornou a aquecê-la tendo verificado, de seguida, que estava cheia de pequenos organismos. "A hipótese da geração espontânea é possível" afirmara ele.

Vinte e cinco anos mais tarde, Lazaro Spalanzzani(padre)teceu severas críticas a essas conclusões de Needham. Elaborou experiências idênticas àquelas realizadas por este: arranjou frascos contendo várias soluções nutritivas preparadas com água e substâncias diversas, como grão de milho, cevada e ovos.

Após vertê-las nos frascos, selou as extremidades dos mesmos para impedir a entrada do ar e ferveu-os durante uma hora com o objectivo de destruir os organismos que pudessem conter. Em seguida, arrefeceu-os e manteve-os fechados por vários dias. Quando os abriu, não encontrou germes.

Como se vê, obteve resultados diferentes. Para Lazaro, Needham não tinha aquecido os tubos suficientemente para provocar a morte de todos os seres vi- vos neles existentes, pois, mesmo depois de aquecidos, poderia haver uma certa quantidade desses seres, que reproduziriam logo que os tubos arrefecessem.

Needham considerou um pouco absurda esta hipótese.

Como é que aquecendo um líquido a uma temperatura muito alta, poderiam existir ainda seres vivos, uma vez que a essa temperatura, a força vegetativa seria destruída? A abiogénese continuou a persistir pelo facto da opinião pública comungar da mesma ideia de Needham!

A descoberta do oxigénio levou com que os defensores desta teoria encontrassem mais um ponto de apoio. Sendo esse gás essencial à vida, eles explicaram os resultados da experiência de Lázaro da seguinte maneira: " a vedação hermética e o aquecimento prolongado recomendado por lázaro impedia a reprodução de micróbios, os germes aí existentes não eram destruídos, mas sim o oxigénio, que é importante à geração espontânea e à sobrevivência dos germes".

Uma crença tão firmemente arrugada que qualquer alegação da sua ocorrência seria encarada com total descrença. Esta descrença categórica é o produto de uma evolução muito lenta. Sem o conhecimento da doutrina da continuidade genética, a ideia de que larvas de insectos, ratos e vermes pudessem ser gerados de matéria não viva em ridiculamente exagerada. O que aconteceu ao longo do tempo foi que alegações para origem abiogenética de animais relativamente grandes e complexos como sapos e ratos foram completamente abandonadas até que, por fim, bactérias, fungos e microorganismos foram as únicas criaturas que se pensou que pudessem originar-se espontaneamente.

A geração espontânea foi desacreditada pelos trabalhos do cientista Louis Pasteur, apesar do galarim de apoiantes ilustres ao longo dos tempos. A ideia dessa hipótese foi limitada à possibilidade de que as bactérias pudessem originar-se de novo dos fluídos internos e em caldos de carne alimentícios.

A importância das famosas experiências de Pasteur foi mostrar que muitos exemplos da declarada geração espontânea da bactéria estavam sujeitos a uma outra interpretação nomeadamente à contaminação dos fluídos nutrientes contidos em frascos por microorganismos presentes no ar.

É hoje geralmente aceite que a geração espontânea não ocorre.

Biogénese

Embora fossem muitos os cientistas que acreditavam que os seres vivos nasciam directamente da matéria não viva, havia quem duvidasse dessa hipótese, entre os quais Francisco Redi e Louis Pasteur.

Com as sua maravilhosas, engenhosas e cuidadosas experiências, esses dois cientistas basearam-se na moderna investigação científica do problema da origem da vida com o único propósito de invalidar essa mesma teoria da geração espontânea.

Redi, numa suposição básica, demonstrou claramente que a vida não é gerada espontaneamente, acreditando que a terra bem como os seus constituintes foram criados por um ser supremo e omnipotente e, portanto, sobrenatural.

O número infinito de vermes é reproduzido em cadáveres e vegetais em decomposição. Para testar a sua hipótese, Redi realizou a experiência que a seguir transcrevemos:

- Numa caixa aberta colocou três cadáveres de cobra para apodrecerem. Logo depois, verificou que esses cadáveres estavam cobertos de vermes que devoravam a carne; cada vez que o tempo passava, constatou que os vermes iam aumentando de número e de tamanho, porém continuavam com a mesma forma.

Redi não pode ver os seu "esconderijos", uma vez que esses vermes escapavam por uma abertura muito pequena da caixa fechada. Por conseguinte, não observou a coloração deles.

Realizou novamente a experiência. Viu que os vermes maiores eram brancos e os menores rosados, procuravam activamente uma saída, mas não encontraram, pois, Redi fechou todas elas.

Passados alguns dias; Redi apercebeu-se que os seus movimentos tinham cessado, isto é, pareciam dormir; diminuíram de tamanho assumindo formas

semelhantes às de um ovo(formas ovais)e com coloração branca dourada que passava a vermelho, alguns até escureceram tornando-se pretos, ficaram mais duros e diferenciavam-se por algumas propriedades.

Redi separou os vermes em frascos diferentes bem cobertos com papel: Oito dias depois, todas as cascas vermelhas estavam partidas e, de cada uma delas, saía uma mosca. As pupas pretas, após quatorze dias, produziram também moscas pretas listadas a branco.

Para Redi o sucedido era muito fácil de ser explicado: antes da carne de tornar bichada, pousaram sobre ela moscas iguais àquelas que deixaram vermes, originando, de seguida, ovos e larvas.

Quer isto dizer que as larvas vieram dos ovos depositados pelas moscas e não da transformação ou putrefacção da carne.

Por outro lado, Pasteur mostrou que as soluções nutritivas e outros materiais não produziam organismo vivo, depois de esterilizados, a partir de experiências conclusivas com os seus frascos com "pescoço de cisne".

Colocou nesses frascos líquidos como urina, suco de baterraba, agua pimentada, suspensão de levedura de cerveja em água, etc., todos eles em contacto com o ar. Aqueceu-os até que os vapores saíssem dos frascos, cujo gargalo estava curvado. A mistura permaneceu imutável indefinidamente, mesmo depois de os frascos se terem arrefecido. A entrada do ar arrefeceu a mistura de tal modo que ela não foi capaz de extrair a vitalidade dos germes, deixando curvas húmidas no pescoço que só as poeiras poderiam agir na infusão.

Alguns meses mais tarde, o incubado foi removido, ficando somente as ferramentas necessárias. Decorridas cerca de quarenta e cinco horas, bolores e bactérias tornaram-se visíveis.

Redi e Pasteur convenceram a maioria dos opositores da biogenése de que os seres vivos provinham de outros preexistentes e nunca espontaneamente.

Abiogénese ou Biogénese ?

Em ciência, ao tentarmos explicar um facto, fazemos suposições ou hipóteses que passam a ser testados, directa ou indirectamente, através de experiências.

Como vimos atrás, a abiogénese defendia que os seres vivos podiam ter origem a partir de substâncias não vivas espontaneamente, isto é, por si só; peixes surgiram de poças de água, moscas originar-se-iam de carnes em decomposição, ratos nasceriam de trapos sujos, etc.

Aristóteles, Harvey, Helmont, são exemplos de cientistas que acreditaram cegamente nesse hipótese, e tudo fizeram para a provar.

Todavia, hoje, ela é considerada uma crença absurda pois, segundo análises profundas, resultou de interpretações erradas a partir de observações apressadas de factos quotidianos.

Vejamos um caso.

A invenção do microscópio, ao contrário do que se poderia imaginar, possibilitou imenso a descoberta e o estudo dos micróbios que, para os defensores da abiogénese, poderiam ter surgido de matéria inanimada.

Redi, após ter certificado que todas as formas de vida tinham sido destruídas, ferveu caldo de carne em vários frascos, uns abertos outros fechados, funcionando como controle ou testemunha dessa experiência. Apareceram micróbios somente nos frascos abertos.

Porquê? Porque a falta de ar nos frascos lacrados impediu a formação de micróbios, argumentavam os abiogenistas.

Ora, admitindo que a origem desses micróbios é abiogénica, eles deveriam ter surgido nos dois tipos de frascos, independentemente da presença ou ausência do oxigénio.

Esta experiência revelou-se uma experiência controlada, através da qual Redi quis mostrar que os seres vivos procedem de outros seres vivos.

De uma forma brilhantíssima, Louis Pasteur também provou o mesmo, ou seja, colocou a teoria da abiogénese definitivamente em xeque, na medida em que, estando um hipótese, acabou por reformular uma teoria com base em todos os requisitos científicos e amplamente aceite.

Contudo, apesar de afirmar que o ar é uma fonte indispensável aos microorganismos e que a matéria bruta é contaminada facilmente pela matéria viva, isso não significa que invalidou totalmente a abiogénese. O que devemos

entender é que deu respostas convincentes à maioria das objecções feitas a essa hipótese de origem da vida.

No final do Séc. XVII, a polémica e a controvérsia da discussão fizeram pairar no ar as duas hipóteses: abiogénese ou biogénese?

Leeu Wennhoek, examinando gotas de água de pântanos de saliva, convenceu-se de que os seres vivos não podiam produzir-se por putrefacção. Consequentemente, apoiava a biogénese.

Por outro lado, as experiências de Needham culminaram com a aparição de numerosos seres vivos pequenos quando ferveu também caldo de carne, concordando, assim, com a abiogénese.

Havia biólogos que até então mostraram-se indecisos em concordar com uma ou outra dessas hipóteses e, por isso, começaram as suas próprias investigações.

É o caso de Louis Jablot que ferveu a água e palha durante meia hora; depois colocou a mesma quantidade de infusão em dois vasos iguais, Antes que essa infusão tivesse arrefecido, Jablot fechou um dos vasos com pergaminho, deixando o outro aberto. Após alguns dias, apareceram microorganismos no vaso aberto, que se manteve nas mesmas condições por mais algum tempo, ao contrário do outro vaso que não continha nenhuma espécie de ser vivo.

A melhor explicação, para Jablot, era que o ar continha esporos destes microorganismos.

Poderia pensar-se que, com esses resultados, a mais provável seria a hipótese da biogénese, mas a polémica estava ainda longe de terminar.

O auge do debate foi atingido quando o respeito do cientista Pouchet realizou experiências com infusões.

Preparou uma infusão de palha e juntou-lhe azoto e oxigénio, com a finalidade de criar "ar artificial" dentro do balão. Como já era de esperar, passado algum tempo, surgiram bactérias, protozoários e fungos. Aqueceu a água, porém, os micróbios reapareceram.

Pouchet, chegou a conclusão de que a abiogénese era possível. Tendo efectuado praticamente as mesmas experiências que Pasteur, diferenciando-se

apenas no material utilizado, contradisse-o nas duas conclusões.

A abiogénese não provou cientificamente a existência de microorganismos, mas sim comprovou-a.

O princípio da bionénese continuou a ser o ar, fonte de vida dos microorganismos.

A solução deste problema, que obriga continuamente a recuar no tempo, conduziu ao problema da origem dos primeiros seres vivos na Terra.

INTERPRETAÇÃO DOS DADOS SOBRE A CONSTITUIÇÃO PRIMITIVA DA ATMOSFERA TERRESTRE E A CONSTITUIÇÃO ACTUAL

A Terra Primitiva

Ao considerar a origem da vida, devemos estudar as condições existentes na Terra, antes do seu aparecimento.

A idade da Terra, calculada segundo vários métodos, é de cerca de quatro e meio a cinco bilhões de anos. Como nenhuma das técnicas empregadas é muito precisa, as estimativas diferem em milhões de anos. Exames dos fósseis e de outros materiais mostra que a vida não deve ter existido na Terra até cerca de dois bilhões de anos atrás, o que significaria que a vida tem menos da metade da idade da Terra.

Muitas hipóteses foram elaboradas para explicar a origem da Terra:

1. Acredita-se que o Sol e seus planetas se formaram numa nuvem de poeira cósmica. Provavelmente, a Terra começou como uma pequena massa que foi aumentando porque suas forças gravitacionais foram atraindo mais e mais partículas.

2. À medida que a Terra aumentava em massa, suas forças gravitacionais também cresciam, comprimindo as partículas cada vez mais. Com esta compressão, a temperatura começou a aumentar gradualmente.

3. Em determinada época começou o resfriamento que continuou por muitos milhões de anos. Durante esses processos de aquecimento e resfriamento formaram-se muitos compostos químicos. Os materiais mais pesados afundaram para o centro, formando o núcleo da Terra, enquanto que os mais leves permaneceram em cima, formando a parte externa.

4. Com a abaixamento da temperatura, a superfície da Terra solidificou-se, com excepção das regiões em que erupções vulcânicas derramaram rocha fundida na superfície. A crosta terrestre original e mesmo as águas dos oceanos resultaram, principalmente, da actividade vulcânica.

5. Por causa do seu tamanho, a Terra exerceu força gravitacional suficiente para manter presos os gases que ficaram girando em seu redor e que, de outro modo, teriam escapado para o espaço. Esses gases existentes antigamente eram muito diferentes dos encontrados hoje na atmosfera.

A Atmosfera primitiva

Vimos que a Terra foi capaz de manter os gases que estavam escapando do seu interior. O exame científico do sistema solar e das partes do Universos mostra que as atmosferas das estrelas e planetas sofrem mudanças graduais em longos períodos de tempo. Portanto, a atmosfera da Terra também deve ter-se modificado. Actualmente, cerca de 80 % da nossa atmosfera são de nitrogénio; a parte restante é constituída principalmente por oxigénio e mais uma pequena quantidade de outros gases, entre os quais bióxido de carbono.

Os geólogos e outros cientistas verificaram que há evidências de que a antiga atmosfera era composta de vapor de água, hidrogénio, metano e amónia. Ainda hoje, o planeta Júpiter tem a atmosfera composta desses três últimos gases. O hidrogénio é o mais simples dos elementos e também o mais abundante no Universo. Metano(CH4)é um gás que se queima facilmente e que, por isso, é usado como combustível doméstico. A amónia(NH3)é muito comum nos líquidos de limpeza.

A composição da atmosfera primitiva tem importância fundamental na elaboração da hipótese heterotrófica.

A EVOLUÇÃO PRÉ-BIOLÓGICA E HIPÓTESE AUTOTRÓFICA E HETEROTRÓFICA

Críticas à Teoria Evolucionista da Origem da Vida

Não podendo os seres vivos surgir senão através de outros seres vivos, perguntar-se-á: Como terá surgido pela primeira vez a vida ? Os defensores da origem evolutiva da vida a partir da matéria inerte viram-se assim a certa altura envolvidos por toda uma série de "círculos viciosos, lembrando, de algum modo o famoso paradoxo do ovo. Passemo-los rapidamente em revista:

1. Os compostos orgânicos essenciais à vida(açucares, gorduras, proteínas e ácidos nucleicos)são hoje exclusivamente fabricados pelos seres vivos. Como poderia ele ter aparecido na ausência destes?

2. Vimos que os animais(heterotróficos)não podem viver sem os elementos fabricados pelos vegetais(autotróficos). Sendo assim, parecia então procurar a origem da vida nos vegetais, os mais primitivos(algas autortóficas)surgidos por evolução da material mineral e capazes de viver de maneira autónoma, uma vez que fabricariam os seus próprios alimentos. Mas, como se sabe, organismos deste tipo necessitam não só de um sistema de extracção de energia solar, como ainda, de um sistema complementar de utilização dessa energia. Eles teriam portanto sido, logo desde a origem, seres muito complexos, o que parece altamente improvável.

Por outro lado, o agente essencial da fotossíntese - a clorofila - é exclusivamente fabricada pelos seres vivos.

3. Para sintetizar as moléculas complexas que estão na base da matéria viva é indispensável, como vimos, um fornecimento permanente de energia. A fonte universal da energia utilizada pela vida (o ATP)é um produto da actividade dos seres vivos, exigindo a sua fabricação, no interior da célula, um mecanismo químico extremamente complicado.

4. As reacções vitais, mesmo nos organismos mais simples são catalisadas por enzimas, realizando-se a temperaturas moderadas mas a velocidades extremamente grandes. Mas as enzimas tiram a sua informação dos ácidos nucleicos e a formação destes requer, ela própria, a intervenção de enzimas.

Quais teriam aparecido primeiro?

Estava-se, na verdade, num impasse. O grande mérito do bioquímico soviético A. J. Oparin e do biólogo inglês J. B. S. Haldane foi o de ter proposto um meio de quebrar a maioria destes "círculos viciosos", abrindo assim caminho, como vamos ver, a todas as experiências actuais.

Como Seriam Eles?

Hipótese Autotrófica

Todos os seres vivos necessitam de alimento; portanto, a primeira forma de vida deveria ter sido capaz de fabricá-lo a partir de substâncias minerais existentes no meio. Esta hipótese supõe que a primeira forma já tivesse essa capacidade de sintetizar alimentos, isto é, formar alguma coisa complexa partindo de substâncias mais simples.

Entretanto, há uma crítica séria que deve ser feita:

- todas as reacções químicas relacionadas com a síntese de alimentos são muito complexas, exigindo do organismo uma estrutura também complexa. Se os organismos primitivos foram capazes de sintetizar alimentos, precisamos admitir que tenha aparecido repentinamente um sistema complexo de síntese, pois, só em células organizadas, essas reacções são possíveis.

Assim, os primeiros seres ou as primeiras células autotróficas deveriam ter sido organismos complexos desde o início, ou seja, a vida teria começado por células demasiado complexas o que, naturalmente, pode ter acontecido. Por outro lado, segundo a teoria evolucionista, os organismos complexos são, frequentemente, o resultado do acúmulo(somatório)de elevadíssimo número de pequenas modificações ocorridas em organismos mais simples, num grande espaço de tempo. Será mais razoável supor que a vida começou num organismo simples, um organismo que não pudesse fabricar o seu próprio alimento.

Então, consideramos a teoria autotrófica absurda?

Aceitá-la é contradizer a teoria da evolução, negá-la é recusar uma das hipóteses para elucidar a origem da vida.

Hipótese Heterotrófica

Para os defensores desta hipótese, a forma mais primitiva de vida desenvolveu-se a partir de substância inanimada, isto é, evoluiu vagarosamente da matéria bruta, formando-se, num ambiente complexo e sem condições muito especiais, há milhões de anos atrás, um organismo extremamente simples, incapaz de sintetizar substâncias orgânicas a partir de substâncias minerais e, portanto, heterotrófico.

Para Theilhard de Chardin(1916), a matéria viva ou não viva do universo organizou-se mediante um longa cadeia de complexidade crescente que inicia-se com partículas elementares, prosseguindo pelos átomos, moléculas, células e, por fim, organismos individuais. Considerou que cada nível de complexidade fornecia elementos de construção que, por sua vez, iam formar o nível seguinte, de complexidade superior.

Em 1924, Alexandre Oparin supôs que os primeiros seres seriam extraordinariamente simples, servindo-se de substâncias orgânicas(que se formaram na Terra antes do seu próprio aparecimento)para se alimentaram.

Trabalhos levados a cabo pelo cientista John Haldane(1892-1964)também basearam-se nesta hipótese de Oparin; embora diferenciassem nalguns pontos, ambas estão de acordo com a Teoria da Evolução e, nos últimos anos, têm vindo a ser apoiadas por resultados de experiências empreendidas.

Todavia, a experiência de Oparin, por ser mais vasta, é a que mais se evidenciou como possível solução para o problema da origem da vida.

IMPORTÂNCIA DOS MODELOS CIENTÍFICOS

COM A NOSSA REALIDADE

Na Ciência, recorremos muitas vezes a modelos: por exemplo quando queremos comparar um novo conceito com outros já conhecidos.

Eles ajudam a compreender as nossas observações e a prever novos fenómenos.

Por ex.: no estudo da Terra usam-se vários modelos, conforme o aspecto que se quer focar - físico, político ou económico; no estudo dos animais e plantas usam-se também modelos e até se usam modelos de carros para brincar.

Convém, no entanto, não perder de vista que eles não são a realidade, mas apenas esquemas mais ou menos simplificados da realidade e têm sempre as suas limitações.

Por vezes, há novas descobertas, as ideias evoluem com o tempo e então um dado modelo, até aí aceite, deixa de as explicar. Que fazem os cientistas nessas condições ? Procuram outro ou outros mais adaptados às novas situações.

Na Biologia foi precisamente isto o que se verificou em várias circunstâncias.

RESUMO

Até à última metade do Séc. XIX, acreditava-se que os seres vivos primitivos, de acordo com as várias hipóteses formuladas, tiveram as seguintes origens:

1º - Teriam surgido no passado com produto de um acto sobrenatural - criação especial. Na época em que foram criadas, as espécies possuíam exactamente as mesmas características que actualmente possuem, isto é, elas perpetuam-se, sem mudanças profundas, através de gerações. As variações individuais não podem prevalecer contra a fixidez que lhes impõe a hereditariedade. A teoria fixista, aceite mesmo pelas pessoas mais esclarecidas, não pode ser aprofundada em termos físico-químicos.

2º - Teriam formado espontaneamente a partir da matéria sem vida. Este conceito da geração espontânea(ou abiogénese) muito difundido entre os cientistas foi definitivamente desacreditado pelas experiências de Pasteur.

3º - Teriam resultado da reprodução de outros seres vivos da mesma espécie, ou da transformação de seres completamente diferentes. Em virtude da evolução química progressiva das substâncias que lhes são indispensáveis, o que requer a passagem de muitos milhões de anos.

A Terra, logo após a sua formação, apresentava condições completamente diferentes das actuais; sua superfície era muito quente e sua atmosfera constituída fundamentalmente por metano (CH4), amónia(NH4), hidrogénio

(H2)e vapor de água(H2O)

Os cientistas, entre os quais Oparin, acreditam que nas condições da Terra primitiva surgiram compostos orgânicos que, gradativamente, constituíram sistemas moleculares capazes de se autoduplicar e controlar a sua própria actividade; estes teriam sido os ancestrais dos primeiros seres vivos.

Diversos experimentos em que se simulam, em aparelhos bem elaborados, as condições da Terra primitiva, têm demonstrado que, realmente, moléculas orgânicas podem ter-se sintetizado na Terra primitiva, conduzindo, assim, à formação das células vivas.

Apesar disso ser vantajoso para esta hipótese, não se conseguiu ainda reunir e organizar essas moléculas de modo a originar-se vida. Isto é, não foi ainda possível originar um ser vivo; conseguiu-se, isso sim, produzir a matéria que o constitui. Portanto, o problema da origem da vida, baseado em termos físico-químicos, até agora é hipotético na medida em que não temos dados palpáveis ou concretos.

Os seres aeróbios passaram a realizar o mecanismo de respiração, permitindo o seu desenvolvimento cada vez mais acentuado em todos os meios.

Como vimos anteriormente, os seres obtinham energia e matéria pelo processo da fermentação, ou seja, o meio era desprovido de oxigénio gasoso. Daí serem denominados por seres anaeróbios.

Logo, o aparecimento do oxigénio pela fotossíntese contribuiu muito para o desenvolvimento de um novo processo, mais eficaz, de obtenção de energia - respiração.

Sendo aeróbios, esses seres adquiririam mais energia da mesma quantidade de alimentos, migrando com maios rapidez dos mares e oceanos onde tiveram origem para todos os meios terrestres, onde continuaram e continuam ainda em desenvolvimento.

Contudo, o homem não sabe ao certo se foi isso que realmente aconteceu.

Se algum dia ele puder ele puder comprovar como originou a vida na Terra primitiva, ou a existência dela fora deste planeta, e tiver condições de analisar minuciosamente as formas existentes, certamente encontrará respostas

a origem da vida de alexandre oparin



Imagem: a experiência de Miller (de “À Descoberta da Vida”)

Bem”, o Mário começa sempre da mesma maneira, acho graça ao modo como coloca as mãos em oração no seu esforço de concentração, “ a primeira questão que se coloca sobre a origem da Vida é perceber se esta se forma espontaneamente hoje ou não. Claro que vocês já sabem que a Vida não se forma espontaneamente na Terra actualmente, mas não se esqueçam de que foi preciso chegar a essa conclusão. Até recentemente pensava-se que a vida surgia por geração espontânea. Quem primeiro o contestou terá sido Francesco Redi, no sex XVII, iniciando uma polémica que só terminou no sec. XIX, quando Louis Pasteur fez uma série de experiências na linha das que Redi tinha feito. Ora o que é que podemos concluir do facto de a Vida existir mas não se formar espontaneamente hoje?”

Que a Vida vem do espaço, como diz o Fred Hoyle?”

O Fred Hoyle e não só Luisa, essa ideia é anterior a ele, a Panspermia e a teoria Cosmozónica propuseram que viesse na forma de esporos; Fred Hoyle propôs a hipótese das bactérias e vírus, não só como explicação para a origem da Vida na Terra mas também para a sua evolução. Mas reparem que essa hipótese não tem grande interesse do ponto de vista da Ciência, pois apenas remete o problema para outros locais do Universo. A Ciência é uma metodologia de investigação e, nesta altura, não podemos investigar como a Vida se pode ter formado noutros lados. Essa hipótese pode interessar à Filosofia, pode ser verdadeira, mas não interessa à Ciência porque a metodologia científica não lhe pode ser aplicada com os conhecimentos actuais.”

Agora é que me estás a baralhar! Então pode ser verdade mas não interessa à Ciência? A Ciência não busca a verdade sobre o Universo?

Claro que busca! Mas dentro da sua metodologia e recursos. A Filosofia também busca a verdade, com outra metodologia. A própria Teologia não deixa de ser uma busca de Verdade. Minha cara Luísa, o Pensamento busca incessantemente a Verdade, mas usando diferentes caminhos ou metodologias. O trabalho do Fred Hoyle, que tão bem expuseste, pertence ao campo da Filosofia porque extravasa as condicionantes do método científico mas não do filosófico”.

Mas ele era um cientista...”

Claro! Ora essa! O pensamento não tem de estar prisioneiro de uma metodologia. O Poincaré era um matemático e no entanto foi, para mim, talvez o maior filósofo de todos os tempos!”

Esse não conheço”, Luísa ri-se

Bem, não nos dispersemos, que mais hipóteses podemos fazer?”

Que a Vida foi criada por um Deus?”, a Ana com ar muito desconfiado, de quem não está a perceber onde o Mário queria chegar.

Bem, Ana, e como é que esse Deus fez a Vida? Os átomos tiveram de se juntar para formar as células, não é? Ou então dizemos que a Vida apareceu porque Deus quis, sem mais explicações, e estamos novamente fora da metodologia científica. Nota, não afirmo que não tenha sido um Deus a criar a Vida, só digo que também não podemos aplicar a metodologia científica a essa hipótese.”
Então, tu queres hipóteses às quais a metodologia científica possa ser aplicada, é isso?

Exactamente. Ou seja, hipóteses que possamos investigar, verificar.”

Queres, portanto, uma hipótese em que a Vida tenha origem na Terra, sem intervenção exterior, e compatível com o facto de ela já não se criar actualmente... é isso?”, a Luísa com aquela pose direita que toma sempre que decide encarar um assunto com seriedade.

Isso!”

Estou a lembrar-me do que o Jorge já disse... as condições da Terra seriam diferentes no início; as de então seriam as adequadas ao aparecimento da Vida, e as actuais inadequadas...”

Isso mesmo. As condições iniciais da Terra eram muito diferentes, independentemente da teoria do Jorge, a composição da atmosfera seria diferente, a temperatura era algo mais alta”. Não temos vestígios que nos digam com era a atmosfera antes do aparecimento da Vida, mas o russo Alexandre Oparin fez, em 1924, a primeira análise consistente do assunto, concluindo que para ser possível a geração dos compostos elementares da vida a atmosfera deveria ser redutora, ou seja, sem Oxigénio. Ele analisou como poderiam esses compostos ser produzidos no ambiente inicial e como se poderiam juntar para formar uma célula. O seu trabalho é a base de todos os trabalhos posteriores.” Mário faz uma pausa, não sei se espera que comentemos algo. Luísa decide-se:

Mas não foi um tal Miller que fez uma experiência que produziu esses compostos?”

Foi, ele verificou que nas condições previstas por Oparin efectivamente se geravam os compostos previstos. Na altura isso foi considerado a prova que a Vida se tinha assim gerado. Mas foi sol de pouca dura.”

O que é que queres dizer com isso? A experiência estava errada?”

Nada disso. O que acontece é que depois verificou-se que isso é muito fácil de conseguir numa qualquer atmosfera que contenha os elementos necessários e se disponha de uma qualquer fonte de energia, como descargas eléctricas, radiações, até ondas sonoras. Até se descobriu esses compostos em meteoritos, sinal de que podem ser produzidos mesmo em condições extremas e não de que há vida noutros lados.”

Portanto, não há nenhuma razão para pensar que a Vida possa ter surgido espontaneamente nos primórdios da Terra?”

Ahh, isso há! Toda a estrutura da Vida espelha isso. Reparem, quando algo é fabricado para uma função, são escolhidos os elementos mais adequados. Não se fazem os motores dos automóveis com barro, não resultaria, fazem-se com um metal porque é o material mais adequado. E também não se constroem com pecinhas como um Lego, os seus componentes são especificamente desenhados para a função e construídos com os materiais mais convenientes, não é verdade?”

Sim”, assentimos os três.

Mas com a Vida nada disso se passa. Por um lado, os elementos reactivos mais abundantes do Universo são também os mais abundantes na Vida, o que está de acordo com a possibilidade de a Vida se ter originado por organização espontânea; por outro lado, a Vida usa uma enorme variedade de estruturas mas construídas com um número reduzido de tipos de blocos, ou seja, de compostos elementares, a que se chama monómeros. Isto é o que seria de esperar num processo onde esses blocos fossem produzidos em grandes quantidades numa primeira fase e, numa segunda fase, se pudessem associar formando polímeros, num vasto número de combinações.”

Pelo que disseste, a primeira fase não levanta problemas...”

Pois não, a segunda é que levanta. Diversas hipóteses têm sido analisadas, nomeadamente uma em que argilas fariam parte do processo de polimerização. Sidney Fox conseguiu obter alguns polímeros mas teve de recorrer a condições difíceis de ocorrer naturalmente, nomeadamente a temperaturas da ordem dos 200º C. Ainda ninguém conseguiu um modelo satisfatório da segunda fase.”

Mas afinal o que é que sabemos?”, a Luísa meio desiludida.

Perceber a Vida e a sua origem é um problema tremendamente complexo; temos de ter a humildade de perceber que não há resposta fácil. O que temos de fazer é investigar, ir percebendo como funciona a Vida e, à medida que o vamos fazendo, melhores hipóteses podemos ir construindo sobre como se originou. O facto de sabermos
1 - que se compõe maioritariamente de elementos abundantes no Universo,
2- que se organiza como um Lego e
3 - que já não se cria,
são já três importantes pistas. E temos várias hipóteses sobre como se poderiam ter formado diferentes estruturas da célula, nomeadamente as membranas. Se quiserem saber detalhes é só irem à Net. Mas não temos ainda nenhuma hipótese que eu considere satisfatória sobre como foi possível a formação das longas cadeias dos polímeros e muito menos um resultado experimental desta 2º fase do processo de construção da Vida
.”

Jorge, e tu? Não disseste que tinhas coisas a dizer a este respeito?” Luísa parecia algo desiludida com a franqueza do Mário.

Quarta-feira, Novembro 28, 2007

Indimensão

No Sem Penas o António colocou um post onde conta duas pequenas histórias de um príncipe da humanidade que eu também tive o privilégio de conhecer.

Não é único Príncipe que tive a felicidade de conhecer, alguns são pessoas bem simples e com vidas bem difíceis; todos têm em comum uma coisa: inteligência e coração estão em todos os seus pequenos actos. Um coração sábio, que compreende o que está oculto.

Talvez seja o facto de eles nunca separarem uma coisa da outra que lhes permitiu ascender a uma sabedoria que nos avassala. Talvez seja uma questão de atitude perante a vida, cultivada desde a nascença. Talvez seja um dom.

Recomendo-vos a leitura. E aqui deixo também a minha homenagem ao eng.º Aleixo.

Alf

Domingo, Novembro 25, 2007

A procura eterna do Conhecimento

Diogenes, Jean-Léon Gérôme, 1860, Walters Art Museum, USA


Bem”, Mário pigarreia, percebo que está um pouco nervoso, “primeiro é preciso que entendam que todas as teorias que fazemos sobre o Universo têm erros, todas as teorias são temporárias, cedo ou tarde serão substituídas por outras”. Mário cala-se, percebo que espera uma reacção. Um pouco surpreendente esta declaração, vinda do Mário. Luísa fala: “Todas como? Não te estou a perceber... a teoria atómica não está certa?”


Mário não responde imediatamente. Olha para mim, parece-me que a pedir ajuda, o que me deixa confundido. “Imaginem que pegavam num índio da amazónia que nunca tivesse tido contacto com a nossa civilização e o colocavam numa estação espacial; acham que ele seria capaz, por si só, de entender onde estava, de perceber o que via pela vigia da estação espacial?”


Claro que não!”, Luísa responde rapidamente, rindo espantada.


Pois não! Claro que não! Mas a ignorância desse índio em relação à estação espacial é como a nossa em relação ao universo. Aparecemos neste universo, ninguém nos explicou o que é isto, e nós vamos tentando perceber, tentando construir modelos do que observamos, fazendo teorias; teorias sobre teorias, tal como o índio faria a bordo da estação espacial acerca da sua situação


Estás muito filosófico hoje”, atalha a Luísa, rindo-se. “Explica lá concretamente o que queres dizer: a teoria de Newton está errada? A Relatividade está errada?”


Claro que sim! Não sabes que a Teoria da Relatividade Geral é superior à de Newton? E quem pensa que a Relatividade Geral é a última palavra sobre o assunto está muito enganado; o próprio Einstein terá dito que no espaço de um século uma nova teoria a substituiria; isso ainda não aconteceu, o que só significa que estamos a ser mais burros do que o Einstein previu”.


Aristóteles, Ptolomeu, Newton, Einstein, realmente estabelecem uma sequência de teorias...”, Ana como quem pensa em voz alta.


Exactamente! Repara que nenhuma é um disparate, o modelo de Ptolomeu é muito bom a descrever as posições aparentes dos astros, o de Newton é mais prático que a Relatividade Geral em muitas situações; mas a Relatividade Geral é o modelo mais exacto.”


Mas onde é que queres chegar com isso? E o que é que isso tem a ver com a origem da Vida?” interrompe a Luísa. Mário continua calmamente: “Por isso, para a Ciência não há teorias “certas”, o que há é a melhor teoria do momento. A teoria atómica ou a do Big Bang são as melhores teorias que temos hoje nos respectivos domínios, mas não são teorias “certas”, longe disso. Por isso têm a classificação de “Modelo Standard” da respectiva área, que significa que é o melhor modelo, não que está certo.” Mário cala-se, está à espera da reacção. Vejo a cara espantada da Luísa e o olhar pensativo da Ana.


É a primeira vez que oiço isso e está a parecer-me que começas a fazer teorias como o Jorge”, Luísa faz uma pausa e larga um sorriso maroto na minha direcção, “O que eu vejo é que, tal como cada religião afirma que ela é a Verdade, a Ciência faz exactamente o mesmo; todos afirmam que estão «certos», não que são apenas a «melhor teoria»; a Ciência é tão cheia de certezas como a Religião; ainda não há muito ouvi cientistas dizerem que a Física estava acabada e que não seriam de esperar grandes novidades no futuro.


Não foi um cientista que disse isso, foi um jornalista científico, o que é completamente diferente; não sabes que segundo o Big Bang o Universo é constituído em 96% por matéria negra e energia negra, coisas cujas propriedades nem somos capazes de imaginar? Não te parece óbvio que temos um longo caminho pela frente? Mas evidentemente que a Ciência tem de passar a ideia de que as suas teorias são «certas», definitivas, e não que são apenas passos de uma longa caminhada, porque é isso que as pessoas comuns querem ouvir, porque elas buscam certezas em que acreditar.“


A Ana está com alguma ideia excitante, um brilho acende-se nos olhos e ilumina a carita. Fala com entusiasmo: “ A Bíblia também tem duas teorias religiosas. O Deus do Antigo Testamento é um Deus que intervém ou ameaça intervir constantemente no mundo material, enquanto o Deus do Novo Testamento actua praticamente apenas a nível espiritual ou mental, não é deste mundo nas próprias palavras de Jesus.”


Isso é bem observado!”, o Mário esboça o seu primeiro sorriso da noite, “ realmente a Bíblia tem duas teorias sobre Deus, um pouco como a ciência tem sucessivas teorias sobre o cosmos...”.


Farto de estar calado, vejo as palavras saírem-me pela boca: “ Há muitas teorias religiosas, mas, tal como as teorias científicas, não há nenhuma que seja “certa”, todas as teorias humanas são procura, são caminhos, não são chegadas...”


Sim, mas o caso da Bíblia é particularmente interessante porque tem paralelo com o que se passa em ciência, pois pode-se usar a teoria do Antigo Testamento ou a do Novo Testamento conforme as conveniências, tal como usamos o modelo de Newton ou o de Einstein.”


O Antigo Testamento.... estou a lembrar-me de uma coisa...” Ana tira um livro da prateleira atrás dela, reconheço a Bíblia, folheia, encontra, lê: “Isaías, 41, 18. Farei brotar águas nas alturas escalvadas e fontes no fundo dos vales; transformarei o deserto num reservatório e a terra árida em arroios de água. 19. Plantarei no deserto cedros e acácias, murtas e oliveiras; farei crescer o cipreste na solidão ao lado do olmeiro e do buxo”, levanta os olhos para nós, “isto é só um exemplo das definições de Deus que surgem no AT; o que tem de curioso para mim é que tem sido a Ciência que tem realizado as obras que o AT atribui ao seu Deus, logo nada satisfaz mais as provas do Deus do AT do que a própria Ciência...


Terás razão”, Mário entusiasmado, “daí talvez o conflito entre os religiosos fundamentalistas e a Ciência...Não há qualquer confusão possível entre Ciência e do Deus do NT, mas pode haver confusão entre Ciência e o Deus do AT!”


Do que disseste formou-se-me na cabeça a imagem duma árvore do Conhecimento, ou seja, que o Conhecimento evolui como a Vida, os novos conhecimentos somando-se aos anteriores e produzindo galhos cada vez mais altos”. Arrepia-me ouvir a Ana dizer isto.


Exactamente! A imagem da árvore é muito boa, embora a do edifício seja a mais usual para representar o crescimento do Conhecimento!” Não me contenho: “Isso é um enorme disparate!”


Arrependo-me imediatamente da agressividade com que isto me saiu, olham-me os três surpreendidos, procuro corrigir mansamente: “enquanto a Vida, ou uma árvore, ou um edifício, crescem por adição, o conhecimento não é assim. As nossas células têm os mesmos componentes das células mais primitivas, apenas fabricam com eles estruturas mais complexas, mas o Conhecimento é exactamente ao contrário, é um processo de descoberta, de escavação, não de construção.”


Como é que podes dizer uma coisa dessas?”, Mário genuinamente surpreendido, “Então o conhecimento não está sempre a crescer com o que todos os dias vamos descobrindo? Não é isto um processo de adição?”


A informação que vamos tendo do Universo é um processo aditivo, mas isso não é o Conhecimento. O Conhecimento são os modelos que vamos fazendo do Universo e estes dependem inteiramente dos conceitos base que definirmos. Um salto no Conhecimento consiste na construção de um novo modelo a partir de novos conceitos. É pela base que o conhecimento cresce, não pelas pontas. Copérnico mudou o conceito de Universo que existia então, não adicionou nada ao modelo de Ptolomeu. Mesmo na Religião, o que distingue as religiões é o conceito da divindade, o resto é consequência. Vocês disseram agora mesmo que o AT e o NT são duas teorias diferentes porque os seus conceitos de Deus têm diferenças”.

Ana e Luísa esperam a contestação do Mário. O Mário está pensativo. “Estou a lembrar-me de uma frase do Heisenberg, ele disse que por detrás de uma nova teoria está sempre um novo conceito de Universo...”. Sorri-me e eu sorrio aliviado, não estou nada interessado em entrar já em desacordo com o Mário, bem basta o que terei de dizer mais tarde.


E o que é que isso tem a ver com a origem da Vida?”, a Luísa é a primeira a retomar o rumo à conversa prometida...


Espera aí, já lá vou, impaciente e fogosa criatura!”, o sorriso de Mário alargando de orelha a orelha, os braços levantados em direcção à Luísa, “esta introdução é porque eu não vos quero enganar, não venho para aqui dizer aquilo que a Ciência tem de dizer para o público em geral, até porque aqui o Jorge não mo permitiria...”, um sorriso largo na minha direcção, pergunto-me porque estará ele tão cordato comigo hoje, “... não vou dizer que a vida começou numa atmosfera de metano onde descargas eléctricas geraram por acaso os compostos da vida e evoluiu por erros de cópia e selecção natural. Essa é a conversa para o público porque a verdade é complexa demais. E qual é a verdade do conhecimento científico sobre este assunto?”


Ah, finalmente!”.

Sexta-feira, Novembro 23, 2007

Basta!

Eu, o Alf tenho a comunicar que estou um bocado farto de ser porta-voz do Jorge, do Tulito e respectivas pandilhas. Também tenho as minhas ideias, o que é que pensam? Mas o certo é que vejo o meu blogue ocupado pelas deles; para poder falar sobre as minhas ideias tenho andado a comentar nos blogues dos outros mas hoje acordei farto desta situação.

Basta!

De agora em diante também irei colocar aqui o que penso! Não sou nenhum idiota, também sei pensar, também tenho ideias engraçadas e profundas!

No princípio ainda dei um arzinho da minha graça, em posts com a etiqueta “sociedade”; mas depois aqueles ocuparam-me o blogue quase por completo. Isto não pode continuar! Eu sou o Administrador deste blogue e não um moço de recados dumas forças que ninguém sabe o que são. De agora em diante, também vou postar aqui, neste blogue! Esta é a minha casa, caramba!

(a que propósito me deu para escrever isto hoje? e será mesmo iniciativa minha ou dos "outros"? Apre, está a ficar difícil distinguir entre eles e eu...)

Terça-feira, Novembro 20, 2007

Arcas de Noé



No passado, as grutas do Monte Carmelo foram o abrigo dos que se viriam a considerar “escolhidos” por terem sobrevivido ao Evento.
No futuro, os que já se escolheram terão melhor abrigo.

Para quem esqueceu o que já foi escrito

Domingo, Novembro 18, 2007

A Vida é Mistério ou Milagre?



A reacção da Luísa à minha promessa de que iríamos finalmente falar da origem da Vida surpreendeu-me: levantou-se subitamente, com aquela ligeireza própria das mulheres nascidas nos primeiros dias de Abril, e saiu porta-fora. “Luísa, onde vais tu, ofendi-te?”. Luísa ri-se sem se voltar. Regressa passados uns instantes, ostentando orgulhosamente um livro na mão direita: “Vim preparada para esta discussão, trouxe a minha Bíblia!” esclarece. Pousa o livro na mesa. O Universo Inteligente, de Fred Hoyle. “Boa escolha”, digo, rindo-me. “Nada como ler as ideias das pessoas que realmente pensam, mesmo que discordemos delas”. “Discordar? Eu não discordo de nada do que ele diz”, afirma Luísa convicta.
Ai ai” geme o Mário, “não bastavam o Jorge e as suas ideias, agora também tu...”. E ri-se. E continua, divertido: “Então explica-nos lá como começou a Vida!”.

Onde começou? No Universo ora essa!”

Eu disse «Como começou», não disse «Onde começou»!”

Eu percebi-te muito bem, só que a tua pergunta «Como começou» pressupõe que começou na Terra. E na Terra é que ela não começou! Na tua cabeça a Terra ainda é o centro biológico do Universo, tal como antes de Copérnico a Terra era o centro físico do Universo”.

Luísa deixa cair o silêncio. Mário fica pensativo, obviamente não gostou mas obviamente não quer iniciar uma discussão com a Luísa. Se fosse comigo... A Ana e eu esperamos pela reacção do Mário, somos agora meros espectadores. Mário hesita, abre a boca para falar, suspende, finalmente diz:”Despeja aí a tua ideia toda que eu falo depois”.

Então lá vai. Fred Hoyle baseia-se em duas coisas para pôr em causa as ideias darwinistas elementares. Uma é que a evolução das espécies não pode resultar de erros ocasionais na cópia dos genes. A taxa de erros de cópia é demasiadamente baixa. O objectivo do processo de cópia é evitar os erros, seria um paradoxo que o sucesso da Vida dependesse de uma deficiência do processo. Ele dá um exemplo”. Luísa folheia o livro. “Aqui está!” Luísa lê para dentro, percebo que prepara um resumo. Mais uns segundos e ela começa:

Suponhamos que temos uma pequena secção do DNA de apenas 10 ligações e que existe uma outra sequência destas 10 ligações que gera uma nova proteína funcionante. Quantas gerações de cópia serão necessárias até que estas 10 ligações surjam pela ordem correcta? A resposta é: numa população de 100 milhões de seres seria necessário um milhão de gerações para que um dos seus membros surgisse com o rearranjo apropriado! E se o número de ligações for 20, seria necessário mil milhões de gerações!”

Então o Fred Hoyle acha que não há evolução?” pergunta a Ana, com ar admirado.

Não é bem isso! O que se passa é que o mecanismo de evolução tem de ser outro!”, Luísa satisfeita com a atenção que conseguiu.
Outro? Qual?”, a Ana ía de espanto em espanto.

Nós temos a ideia de que o código genético é específico de cada espécie, até de cada ser vivo, mas não é nada disso. Repara no seguinte: nós temos células muito diferentes, por exemplo a célula do cristalino do olho é muito diferente dum neurónio, ou duma célula hepática, ou óssea, etc; no entanto, todas estas células dispõem do mesmo código genético, o que as faz diferentes é que numas se executam umas instruções desse código, noutras, outras instruções”. “Sim, isso eu sei”, interrompeu Ana,

Pois sabes, mas o que não saberás é que, tal como as células de um organismo partilham a mesma base genética, também as diferentes espécies partilham um vasto património genético, do qual só executam uma pequena parte. Os seres humanos só utilizam 5% do DNA de que dispõem! Por exemplo, nos humanos há pseudogenes, que são esses genes que aparentemente não usamos, idênticos aos que nas borboletas produzem a coloração das asas! Nas plantas há pseudogenes que produzem sangue nos animais!”

Ena, que confusão! Como é isso possível?”

As bactérias transferem constantemente material genético entre elas e até para células eucariotas, ou seja, para células que têm núcleo, como as nossas, pois as bactérias pertencem a um grupo mais primitivo, sem núcleo. Em consequência, todas as bactérias existentes no mundo têm acesso a um fundo genético comum”.

Então são as bactérias que difundem os genes?”

Não só.”

Não?? Agora é que me deixaste baralhada! Não foi o que acabaste de dizer??”

Há outro agente talvez ainda mais importante do que as bactérias

Ainda mais?”, a Ana não pára de se espantar, a biologia não é certamente o seu forte. Mas eu também estou a ficar espantado com a maneira como a Luísa está a conseguir expor as ideias do Fred Hoyle.

Os Vírus!” exclama a Luísa. “ Os vírus são basicamente pedaços de código genético que usam a maquinaria celular para se reproduzirem. Podem destruir a célula onde se multiplicam mas podem também não o fazer e podem ainda simplesmente acrescentar os seus genes ao da célula que o alberga, seja uma bactéria ou uma célula como as nossas. Se o fizerem em células sexuais, os descendentes do ser infectado terão os seus genes aumentados. Além disso, muitos vírus e bactérias têm uma outra característica importante: são extremamente resistentes a condições ambientais diversas. O Fred Hoyle refere vários exemplos e cita o caso de bactérias que foram encontradas numa câmara de televisão que foi posta na Lua em 1967 pela nave não tripulada Surveyor III e recuperada 2 anos e meio depois pelos astronautas da Apolo XII.”

Então Fred Hoyle acha que são as bactérias e os vírus os responsáveis pela evolução?” pergunta a Ana.

Espera aí, não te precipites, falta-me dizer duas coisas. Uma tem a ver com a origem da Vida. O Fred Hoyle faz contas à probabilidade de se obter por acaso a sequência correcta das 2000 enzimas indispensáveis à vida. As enzimas são comuns a todas as formas vivas e sem elas as reacções químicas da célula seriam tão lentas que a vida seria impossível. Reparem, ele nem se preocupou com as 200 000 proteínas, bastou-lhe calcular a probabilidade de obter as 2000 enzimas para chegar um número fantasticamente pequeno, 10 elevado a -40000, ou seja, uma vírgula seguida de quarenta mil zeros, cerca de 40 páginas de zeros!

Ele dá um exemplo: suponham que num ferro velho podem encontrar-se todas as peças de um Boeing 747 completamente desmontado e que um furacão passa pelo ferro-velho; qual a probabilidade de, após a passagem do furacão, aparecer o Boeing pronto a voar? É deste tipo de probabilidade que estamos a falar.”

E qual é a outra coisa?”, percebo impaciência na voz do Mário.

A outra coisa importante é que muitos dos meteoritos contêm compostos orgânicos elementares, alguns deles exibindo estruturas regulares do tipo das apresentadas por alguns vírus...”
“...Estou a ver... então para ele a vida veio de fora da Terra, trazido por vírus e bactérias a bordo de meteoritos... acho que já ouvi falar disso!”, interrompe a Ana, um sorriso de alívio por estar finalmente a entender onde a Luísa queria chegar.

Exactamente, para ele não há qualquer possibilidade de quer a geração quer a evolução da Vida ser produzida por fenómenos de acaso na Terra; logo, tem de vir de fora da Terra, e as bactérias e o vírus exibem as características próprias de um agente dessa função”.

E qual é a diferença entre considerar isso e considerar que foi Deus?”, interroga a Ana, recuperando o seu estilo provocador. Fico curioso de ouvir a resposta da Luísa.

Não tem nada a ver! O conceito de Deus não adianta nada à compreensão do Universo, não nos ajuda a compreender o fenómeno da Vida. Mas não podemos esperar encontrar num passo só a explicação, temos de ir percorrendo um caminho, dando muitos passinhos. O passinho do Fred Hoyle é este, o de que a vida e a sua evolução vêm através de bactérias e vírus vindos do espaço. Notem que eu fiz apenas o resumo essencial das ideias dele, ele detalha estas coisas que eu disse e vai mais longe, e coloca hipóteses interessantes, como a da inversão da seta do tempo...”

“...Ehh, não avances mais antes de eu falar!”, interrompe o Mário, “Acho que é altura de eu dizer umas coisas sobre esse assunto, nomeadamente como é que a Ciência ataca o problema da origem e evolução da Vida. Tu saberás muito das ideias do Fred Hoyle, mas talvez te falte o enquadramento da metodologia científica.”. Oláaa..., esta conversa está a ficar interessante... dá-me jeito que eles descasquem ideias sobre a Vida antes de eu avançar com as minhas. Aproveito para encorajar o Mário:

Isso Mário, explica-nos lá o que a Ciência tem a dizer sobre o assunto!”

Terça-feira, Novembro 13, 2007

A Vida é uma Legolândia

Modelo simples de uma proteína (enzima Hexoquinase). No canto, modelos de glucose e ATP. Fonte Wiki. A trabalhêra que deve ter dado aos cientistas descobrir isto...


Os elementos mais abundantes do Universo são o Hidrogénio (H), o Hélio, o Oxigénio (O), o Néon, o Azoto (N) e o Carbono (C), que perfazem 99,99% de todos os átomos. Destes, o Hélio e o Néon são extremamente estáveis e não reactivos, digamos, demasiadamente individualistas para aceitarem fazer parte das coisas vivas. Mas então concluímos que os 4 elementos reactivos mais abundantes do Universo, H, N, O e C, são também os mais abundantes na matéria viva, perfazendo 99% desta. Os restantes 32 elementos que a Vida utiliza existem apenas em quantidades vestigiais.

São quatro os elementos mais importantes e são também quatro os “tijolos” da Vida, isto é, os compostos básicos com os quais todas as estruturas mais ou menos complexas da célula, de todas as células, se constroem. Esses compostos são os aminoácidos, as bases, os açúcares e os lípidos.

Os aminoácidos têm 10 a 26 átomos e são em número de 20. Ligam-se em longas cadeias formando os péptidos. Estas cadeias podem ser pequenas, como as enzimas, ou longas, mais de 100 aminoácidos, a que se chama proteínas. A insulina é uma cadeia de 55 aminoácidos.

As pequenas “bases” são 5; com quatro delas se escreve o código genético. Estas bases associam-se a moléculas de açúcar e a um ião fosfato para construir o DNA, a famosa estrutura em hélice que contem os genes. E uma destas associações base-açucar-trifosfato é também a famosa ATP, a molécula da energia celular.

Os açúcares simples, como a glicose e a frutose, podem ligar-se em moléculas ligeiramente maiores, como a sacarose, e podem originar grandes moléculas, como um dos principais componentes do amido. Os açúcares simples e as macromoléculas que originam designam-se por hidratos de carbono.

Os lípidos associam-se para formar as membranas das células, desempenhando ainda outros papéis, como armazenamento de energia – são as chamadas “gorduras”.

Descrito assim, poderão pensar que uma célula é uma espécie de sopa química não muito complicada, como qualquer sopa. Nada mais errado! Vamos olhar rapidamente para as proteínas:

As cadeias de aminoácidos, em consequência dos campos eléctricos da sua estrutura, dobram-se sobre si mesmas, construindo complexas estruturas espaciais com formas definidas, embora não necessariamente estáticas, para cada proteína. As proteínas são peças mecânicas, ou electromecânicas, são os pilares, as vigas, as rodas dentadas, os pistões da complexa maquinaria celular. Podemos classifica-las a partir das suas diferentes funções como:
- enzimas, que catalisam as reacções químicas da vida;
- proteínas estruturais, que formam as armações que mantêm as células juntas num organismo, formam “andaimes” intracelulares, formam grande parte do tecido conjuntivo dos ossos, ligamentos, tendões;
- proteínas contrácteis, que nos permitem ter “músculos”;
- proteínas que “ligam” e “desligam” os genes, que permitem que as células se especializem (uma célula torna-se “muscular” ou “hepática” consoante os genes que escolhe activar);
- proteínas mensageiras, como as hormonas;
-proteínas de defesa, como os anticorpos e o interferão; e
-proteínas de transporte, como a hemoglobina.

Para terminar, uma rápida descrição do espantoso processo de construção de uma proteína. O DNA de um gene é copiado, formando um filamento a que se chama RNA. O RNA sai para fora do núcleo e liga-se a uma formidável maquinaria chamada Ribossoma. O Ribossoma contem cerca de 90 proteínas e percorre o RNA de uma ponta a outra. Enquanto o faz, a cada sequência de 3 bases do RNA, liga o aminoácido codificado nessa sequência à proteína em construção. Ou seja, o Ribossoma lê o RNA como se duma fita perfurada se tratasse e constrói a proteína, tac-tac-tac, associando os aminoácidos conforme codificado na “fita perfurada”. Uma verdadeira fábrica em funcionamento! Mas apenas uma das várias que existem numa célula!

Vemos pois que uma célula é uma espécie de cidade de Lego: com um número reduzido de elementos básicos, uma grande variedade de estruturas são construídas (com os 20 aminoácidos apenas, se constroem as 200000 proteínas diferentes usadas nas nossas células; algumas destas, por sua vez, são usadas para construir verdadeiras fábricas que funcionam dentro da célula!)

Sexta-feira, Novembro 09, 2007

Jorge é um peão

Jorge é um peão de forças que desconhece. As suas acções, as suas “entrada em cena” têm de ser sincronizadas com as coisas que têm de acontecer, para que tudo aconteça no tempo certo. Ele não sabe o que irá acontecer. Mas sabe que tem de esperar pelo momento de dar o passo seguinte. Jorge espera. E nós temos de esperar também.

Quarta-feira, Novembro 07, 2007

A Dúvida é boa companheira

Passou terça-feira na RTP2, mais uma vez, um documentário “científico” analisando as diferenças entre homens e mulheres.

Para além do erro básico de tentar explicar estas diferenças com a experiência de vida dos humanos primitivos, esquecendo que elas têm uma origem muito mais remota – a cadeia de instintos que nos condiciona começou a ser construída com os primeiros seres vivos – esse documentário sistematicamente concluía de acordo com as presunções ancestralmente estabelecidas acerca do assunto.

Um exemplo. Questão: capacidade dos cérebros masculino e feminino para interpretar os sinais dos estados afectivos. Metodologia: a um pequeno grupo de homens e mulheres eram mostradas imagens de caras expressando intensos estados emocionais enquanto um TAC ao cérebro media a actividade cerebral. Resultado: os cérebros masculinos mostravam uma actividade muito superior à dos femininos. Conclusão: as mulheres são muito mais eficientes que os homens na interpretação dos sinais faciais, carecendo de muito menos processamento para a fazer.

Parece evidente a conclusão, não é verdade? Incontestável? Pois isso é apenas o resultado de ela estar de acordo com a presunção que temos sobre o assunto. Vamos já ver como podemos concluir exactamente o oposto.

Um estado afectivo não se resume a ser de “tristeza” (por exemplo). Qual é a intensidade dessa tristeza? É tristeza ou frustração? É devida a uma perda, por exemplo, de um ente querido, ou a um arrependimento? É gerada por acontecimentos relacionados com a pessoa ou resulta da observação de um acontecimento exterior, sem relação com a pessoa? É um estado habitual dessa pessoa ou não? Qual a atitude da pessoa em relação a esse estado afectivo, procura reagir ou não? E como é a personalidade da pessoa? Como são os seus sentimentos? Etc, etc, etc, posso escrever dúzias de linhas com perguntas destas. Uma cara é um livro inteiro sobre a pessoa.

Se o cérebro feminino despachou tão complexa questão com um mínimo de processamento, isso quererá dizer que não analisou nada disso. Limitou-se a identificar a emoção básica aparente. Do livro, leu apenas o título!!!

Portanto, a conclusão será a de que o cérebro masculino é muito mais competente na leitura dos sinais faciais do que o feminino. O que até nem espanta pois sabemos como o instinto maternal tem uma importância crítica nos processos cerebrais femininos – para a fêmea, a interpretação rápida dos sinais básicos das crias é prioritário. Nas crias não há complexos estados de alma a perceber. Os machos, ao contrário, para desenvolverem os seus jogos de poder e de sedução, precisam de uma compreensão muto mais profunda do outro.

Vêm como as presunções nos conduzem facilmente a conclusões erradas? Estão agora convencidos de que a conclusão certa é a que eu apresentei?

Desenganem-se pois! O estabelecimento de duas interpretações diferentes dos factos é apenas o primeiro passo no caminho do conhecimento. Deus é subtil...

As pessoas do teste apenas viram imagens estáticas, fotografias. Pensar que isto é um bom modelo da realidade é mais uma presunção que precisa de ser testada. E se, em vez dos sinais estáticos duma fotografia, se usasse os sinais dinâmicos dum filme, muito mais ricos em informação? E se o cérebro feminino estiver preparado para interpretar os sinais dinâmicos e não os estáticos? Os resultados podem agora ser ao contrário!! Até podem ser iguais nos dois sexos, conduzindo a uma nova conclusão.

Isto concluiria o nosso estudo? Claro que não! Quem disse que um filme é um bom modelo da realidade? Há que pôr as pessoas em presença. Outros mecanismos podem então entrar em acção. Por exemplo, os Inconscientes das pessoas talvez tenham processos de comunicação que desconhecemos. Processos que permitam a uma pessoa saber muito mais acerca de outra do que a lenta interpretação dos sinais faciais.

Transmissão de pensamento? perguntarão, admirados! A Ciência já provou que isso não existe!! Pois provou – provou que as pessoas não parecem ser capazes de transmitir imagens ao nível do Consciente. Isso dava muito jeito aos espiões. Seria útil... Mas não investigou se o Inconsciente é ou não capaz de comunicar independentemente da vontade e do Consciente. Será, não será?

Se for, então talvez uma outra conclusão surja – a de que os cérebros femininos são mais capazes de obterem informação relativamente ao outro através de comunicação inconsciente, por isso não dependem tanto do processamento da informação visual. O cérebro masculino, ao contrário, tem de depender mais desta. Assim como um cego tem de depender do processamento auditivo porque lhe falta a vista.

Mas porque o inconsciente masculino haveria de ter esta capacidade menos desenvolvida que o feminino? Será que é mesmo assim? Ou será que nada disto tem a ver com capacidades mas com objectivos de momento, determinados pelo enquadramento social? Será que este enquadramento moldou os cérebros irreversivelmente na infância ou não? Ou é genético? Será que é alterável no espaço de duas gerações ou não?

Vêm onde nos conduziu termos começado a duvidar? Perdemos uma certeza muito cómoda mas provavelmente errada. Somos agora um mar de dúvidas. Mas entramos no caminho do conhecimento. Só por termos pensado um pouco sobre o assunto, temos uma compreensão muito maior. A Dúvida é boa companheira...

Olhando para o começo do texto perceberão agora como é simplória a conclusão que o tal documentário apresentou. E como é fácil sermos induzidos em erro através de processos simplórios que vão de encontro às nossas crenças, medos, instintos... e como é possível moldar os comportamentos sociais usando a “pseudo-ciência” como dantes se usava a religião... e como o Universo é desafiante, interessante, subtil...